Robin dos bosques (versão moderna)

Posted on Novembro 11, 2012. Filed under: Inspiração | Etiquetas:, , , , , , , |


É constante depararmo-nos nos cafés e esplanadas com discussões do tipo:

- O que o Ronaldo recebe por mês é um escândalo! Dava para matar a fome a tanta gente!

Ou então:

- Os nossos políticos são uma vergonha, deviam ir todos presos. Já viram o dinheiro que ganham? E as reformas?

Numa altura em que a crise no nosso país ganha contornos de agonia, a verdade é que há desigualdades bem piores do que estas. E todos participamos nelas, quando vamos à Casa da Sorte, quando estamos em fila para registar o boletim ou quando juntamos os trocados a ver se dá para uma coluna. Dão pelo nome de Euromilhões.

O Euromilhões ultrapassou de longe a causa poética que o Totoloto (agora sorteio de “2ª”) nos inspirou. É uma máquina eficaz a juntar parte das economias de ricos, pobres e assim-assim e transformá-la num prémio extraordinariamente obeso como a nossa dívida pública. É como a máquina que corta o cereal na seara, que até estava bem espalhadinho, e o transforma naqueles rolos gigantes que ficam bem na fotografia.

Ou seja, retira a muitos para dar a um ou dois. É o símbolo máximo do que não deve ser a distribuição da riqueza.

O sistema garante, obviamente, uma boa fonte de receitas para causas sociais e todos devemos estar gratos por isso. Mas tem nuances que se podem considerar, no mínimo, discutíveis.

A primeira é o facto de a comunicação (quem não se lembra de: “A fazer excêntricos, todas as semanas”?) apelar à riqueza excessiva e de forma ostentatória. Cada vez mais se associa o Euromilhões a riqueza, luxo, ostentação. Mas se me perguntarem quais as políticas sociais, as vantagens dadas aos desfavorecidos ou o meritório trabalho que está por detrás do sistema, eu não sei. Qual o posicionamento que se pretende? Há que encontrar um equilíbrio entre as luzes da ribalta (leia-se prémios chorudos) e a consciencialização para a causa social. Daqui a uns anos ninguém vai falar dos Jogos Santa Casa como uma instituição de ajuda, mas sim como aquela que dá prémios astronómicos.

Numa sociedade que não sabe se amanhã terá que comer, a comunicação dos Jogos Santa Casa soa-me a sacrilégio.

Outro aspecto tem a ver com a acumulação de prémios. As alterações introduzidas há não muito tempo tornaram os primeiros prémios um parto difícil. É bastante comum acumularem-se jackpots. E os cidadãos, como humanos que são, vão atrás das luzes ofuscantes desses primeiros prémios – o que é normal. O que não é normal é essas alterações produzirem prémios cada vez maiores (e, embora não o tenha aprofundado, saem a cada vez mais apostadores individuais), ou seja, aumentando a desigualdade na distribuição da riqueza. Sou da opinião que deveria pensar-se ao contrário:

- Não deixar os prémios acumularem jackpots em demasia, criando sistemas em que o “Sai de certeza” fosse activado quando chegasse a um valor de jackpot menor do que existe hoje. Era um incentivo a que o prémio saísse mais vezes. Por cada 10 sorteios em que o prémio não sai, estamos a impedir que várias pessoas gozem do dinheiro em benefício de… uma ou duas que ficarão com tudo no final. Esta Terça o sorteio dará 168 milhões a alguém. Se calhar poderia dar 16,8 milhões a vários. Há 12 sorteios que não sai o primeiro prémio.

- Talvez não fosse má ideia criar mecanismos que aumentassem a possibilidade de dividir o primeiro prémio por mais vencedores.

- A diferença entre o primeiro prémio e qualquer dos prémios subsequentes é também ela um símbolo de injustiça. Se eu fosse um dos apostadores que tivesse acertado em 3 números e 2 estrelas esta semana, ficaria extremamente contente pelo meu feito heróico. E extremamente triste ao saber que seria recompensado com uns míseros 50 euros (sorteio 90/2012). Porque não diminuir esse gap? Porque não permitir que quem ganhasse o último prémio fosse compensado de forma a, no mínimo, poder jogar um boletim completo, subtraindo verbas ao primeiro prémio?

- Se existem muitos milhões para dar num primeiro prémio, então também deve existir espaço de manobra para aumentar a proporção que é dada à causa social, beneficiando mais portugueses.

Para terminar, gostaria de deixar uma ressalva quanto a uma crítica que certamente me farão. Dir-me-ão alguns que são exactamente os prémios exorbitantes atribuídos ao vencedor que mobilizam as pessoas a jogar. Assim, alterar o mecanismo poderia ter um efeito contrário: diminuía-se a injustiça, mas perdiam-se apostadores.

Por cada cidadão maravilhado com o valor acumulado num jackpot, haverá sempre outro que não irá jogar porque o prémio “nunca sai”.

Aí entrariam pessoas como eu (comportamento do consumidor) e outros profissionais do marketing – tudo é uma questão de atitudes e de como se comunicaria a mudança. Não menosprezemos os marketeers e publicitários deste país.

About these ads

Make a Comment

Deixar uma resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

WordPress.com Logo

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Log Out / Modificar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Log Out / Modificar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Log Out / Modificar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Log Out / Modificar )

Connecting to %s

  • Categorias

  • Arquivos

Liked it here?
Why not try sites on the blogroll...

Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.

Junte-se a 1.011 outros seguidores

%d bloggers like this: